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    Sofá MP-97: o design em série de Percival Lafer vendido por R$ 23 mil

    Percival Lafer — Sofá MP-97, Jatobá maciço, espuma injetada e tecido, Brasil, c

    Reprodução/Leilão Design

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    Sofá MP-97: o design em série de Percival Lafer vendido por R$ 23 mil

    Feito em jatobá maciço por volta de 1970, o modelo pertence à série MP, concebida por Lafer para produção em escala e exportação.

    07 de outubro de 2026 · 3 min de leitura

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    Durante décadas, o colecionismo de mobiliário moderno brasileiro privilegiou o que era raro: a peça única de Joaquim Tenreiro, a encomenda de Sergio Rodrigues para um apartamento específico, o protótipo que nunca entrou em linha. O sofá MP-97 que mudou de mãos no pregão de outubro da Leilão Design é exatamente o oposto disso — um móvel pensado desde o início para ser produzido aos milhares, embalado em caixa e despachado para o exterior. E, ainda assim, alcançou R$ 23 mil.

    Percival Lafer nasceu em São Paulo em 1936 e se formou em arquitetura, mas sua carreira se fez dentro da fábrica. A empresa de móveis da família lhe deu algo que a maioria dos designers brasileiros de sua geração não tinha: linha de montagem, equipe técnica e escala. A partir dos anos 1960, Lafer passou a assinar uma série de modelos identificados pela sigla MP, com numeração sequencial — MP-81, MP-97, MP-121, MP-211 —, uma nomenclatura mais próxima da lógica industrial do que do vocabulário autoral do design de ateliê.

    A série resolvia um problema concreto. Estofados são volumosos e caros de transportar, e Lafer desenvolveu sistemas de encaixe que permitiam enviar as peças desmontadas, remontadas depois no destino. Foi isso que viabilizou a exportação em larga escala para os Estados Unidos e a Europa ao longo dos anos 1970 — e é por isso que, até hoje, móveis Lafer aparecem com frequência em plataformas e leilões norte-americanos, muitas vezes descritos apenas como "Brazilian lounge sofa", sem que o comprador original soubesse o nome do autor.

    O MP-97 segue a gramática da série: estrutura aparente de madeira maciça sustentando volumes estofados, braços largos que funcionam como apoio e como moldura. O exemplar do lote 79 é de jatobá, segundo o catálogo, e não de jacarandá — distinção que deixou de ser apenas botânica. Desde que o jacarandá-da-Bahia entrou nas listas de proteção internacional, nos anos 1990, móveis brasileiros feitos nessa madeira enfrentam entraves de documentação para cruzar fronteiras. Peças em jatobá, imbuia ou outras espécies circulam sem esse obstáculo, o que importa num mercado em que parte relevante dos compradores de design brasileiro está fora do Brasil.

    A redescoberta de Lafer acompanhou a onda mais ampla de valorização do modernismo brasileiro na última década, mas por um caminho próprio. Enquanto nomes como Tenreiro, Zalszupin e Rodrigues foram tratados como autores desde cedo, com bibliografia, exposições e catálogos razonados em construção, Lafer chegou ao colecionismo pelo uso: os móveis estavam nas casas, gastos, reestofados, esperando que alguém identificasse a etiqueta. A atribuição, nesse universo, é parte do valor — reconhecer o modelo é o primeiro passo para precificá-lo.

    Isso ajuda a colocar o resultado em perspectiva. Estofados grandes costumam ser os itens mais difíceis do mercado de design: ocupam espaço, dependem do estado do tecido e da espuma, e muitas vezes exigem restauro imediato. Um sofá de mais de dois metros que atravessa meio século e chega ao pregão identificado por modelo, autor e madeira reúne as condições que o comprador desse segmento procura. O valor obtido situa a peça na faixa alta do que o nome costuma alcançar em leilões brasileiros, ainda bem abaixo dos patamares reservados às peças únicas da geração anterior — a diferença entre comprar design e comprar raridade.

    Ficha da obra

    Artista: Percival Lafer

    Obra: Sofá MP-97

    Materiais: jatobá maciço, espuma injetada e tecido

    Origem e data: Brasil, c. 1970 (segundo o catálogo)

    Dimensões: 70 × 206 × 75 cm

    Leilão: Leilão Design — Outubro 2026, lote 79, 6 de outubro de 2026

    Resultado: R$ 23.000 (venda confirmada)

    Nota de dados: o catálogo não informa procedência, exposições, bibliografia, certificado ou estado de conservação.